sexta-feira, maio 15, 2009

Paixão

João de Deus [1]



Supõe que de uma praia, rocha ou monte,

Com essa vista embaciada e turva

Que dá aos olhos entranhável dor,

Tinhas podido ver transpor a curva

Pouco a pouco do líquido horizonte

A barca saudosa que levasse

Aquele a quem primeiro uniste a face

E o teu primeiro amor!


Depois, que toda mágoa e saudade,

Da mesma rocha ou alcantil deserto,

Olhando avidamente para o mar...

Vias na solitária imensidade

Vagas ficções de um pensamento incerto

Surgir das ondas, desfazer-se em espuma,

Não alvejando nunca vela alguma...

E sempre a suspirar!


Até que à luz de uma intuição sublime

De alma arrancavas o gemido extremo

De saudade, desespero e dor!...

Pois é assim que eu sofro, assim que eu gemo,

Que nuvem negra o coração me oprime,

Nuvem de mágoa, nuvem de ciúme,

Em te não vendo à hora do costume...

Meu anjo e meu amor!



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[1] João de Deus (1830-1896) - Nascido no ano de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Algarve, foi advogado e jornalista. O seu lirismo é simples e terno, com grande profundidade emocional e muitas vezes melancólico. João de Deus foi um dos grandes amigos e admiradores de Antero de Quental. Em 1893 publicou a colectânea poética Campo de Flores, incluindo-se nesta duas obras anteriores: Flores do Campo e Folhas Soltas. Dedicou-se também à pedagogia, campo em que publicou em 1876 a Cartilha Maternal, tendo como fim o ensino da leitura às crianças. Faleceu em 1896.

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