Paixão
João de Deus [1]
Supõe que de uma praia, rocha ou monte,
Com essa vista embaciada e turva
Que dá aos olhos entranhável dor,
Tinhas podido ver transpor a curva
Pouco a pouco do líquido horizonte
A barca saudosa que levasse
Aquele a quem primeiro uniste a face
E o teu primeiro amor!
Depois, que toda mágoa e saudade,
Da mesma rocha ou alcantil deserto,
Olhando avidamente para o mar...
Vias na solitária imensidade
Vagas ficções de um pensamento incerto
Surgir das ondas, desfazer-se em espuma,
Não alvejando nunca vela alguma...
E sempre a suspirar!
Até que à luz de uma intuição sublime
De alma arrancavas o gemido extremo
De saudade, desespero e dor!...
Pois é assim que eu sofro, assim que eu gemo,
Que nuvem negra o coração me oprime,
Nuvem de mágoa, nuvem de ciúme,
Em te não vendo à hora do costume...
Meu anjo e meu amor!
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[1] João de Deus (1830-1896) - Nascido no ano de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Algarve, foi advogado e jornalista. O seu lirismo é simples e terno, com grande profundidade emocional e muitas vezes melancólico. João de Deus foi um dos grandes amigos e admiradores de Antero de Quental. Em 1893 publicou a colectânea poética Campo de Flores, incluindo-se nesta duas obras anteriores: Flores do Campo e Folhas Soltas. Dedicou-se também à pedagogia, campo em que publicou em 1876 a Cartilha Maternal, tendo como fim o ensino da leitura às crianças. Faleceu em 1896.

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